MATERIAIS DE APOIO PARA PROFESSORES DO 1º. 2º e 3ª CICLOS DO ENSINO BÁSICO

Neste item, acompanhando a investigação em curso pela equipa do projeto, iremos disponibilizar materiais para apoio ao desenvolvimento dos programas escolares em vigor no Ensino Básico.

Tendo em atenção a temática do projeto – o estudo dos indivíduos que compunham o exército que o rei D. Sebastião liderou na Batalha de Alcácer Quibir – os materiais integram-se, sobretudo, nas Aprendizagens Essenciais (EA) do 4º, 5º e 8º anos de escolaridade.

Aprendizagens Especificas e fontes históricas

FONTES HISTÓRICAS – Documentos escritos

DOC. 1.

DESCRICÃO DA BATALHA DE ALCÁCER QUIBIR POR MIGUEL LEITÃO DE ANDRADA.  O autor participou na batalha, ficou ferido, foi aprisionado e fugiu para a praça de Melilha onde embarcou de regresso a Portugal.

Extratos da obra de Miguel Leitão de Andrada, Miscellanea, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012 (reedição fac-simile da 2ª ed. publica pela Imprensa Nacional em 1867), pp. 128- 129 e 133-134.

“[…] O dia pois daquella infelicissima batalha que el-Rei Dom Sebastião teve, nos campos de Alcaçar Quiber junto ao rio Lucus […] que foi a 4 de Agosto do anno de Christo 1578, dia de São Domingos […].

E posto assi em ordem nosso esquadrão dos ventureiros, estivemos esperando hum bom espaço o sinal da batalha, e o Santiago; com os Mouros defronte, que da mesma maneira parece o esperavão, em hum plano como huma mensa tão largo, quanto a vista alcançava, em distancia de hum ao outro exercito, menos de meio quarto de legoa, que pouco a pouco se forão chegando hum ao outro.

E todo o campo estava em forma quadrada, na forma que podereis ver no debuxo […]

E no meio da vanguarda delle o nosso terço dos ventureiros, e diante de fronte trinta peças de artilharia em competente distancia. Inda que Jeronymo de Mendonça diga que erão quarenta, eu contei-os só trinta com os seus officiaes, e sem outra guarda. E haveria neste nosso terço 1400 ventureiros de pé, pouco mais ou menos, porém guarnecido com a arcabuzaria de Tangere e Ceita, destríssima, e excellente, que não sei quantos serião.

O campo dos mouros vinha como meia lua, quando he quasi nova, todo de cavalaria que parecia innumeravel com tres fileiras de escopeteiros diante, que vindo a nós cingindo-nos, nos fomos a elles, os quaes tinhão a sua artilharia que erão vinte e quatro peças (inda que alguns dizem quarenta), entre certo milho como senhores do campo, e que sabião o lugar por onde necessariamente havíamos de passar o váo na maré vazia, encubertas da noite antes, com hum milho, pera que quando nos fossemos chegando, nos convidar antes de tal podermos esperar, e com isso nos desordenar, pelo menos impedir o disparar da nossa, como aconteceu.

Dado o sinal da batalha remetemos aos inimigos, que tambem se vinhão chegando a nós cingindo sempre o nosso campo, que parecia muito pequeno, ou nada em sua comparação, assi por elles serem muitos, e largos, como nós poucos, e juntos. E com tal furia com as picas baixas, os investimos, que os arrancamos, e fizemos fugir, de que muitos não pararão senão em Féz. E n´outras partes mais ou menos longe com muito damno, e estrago que receberão de nossa arcabuzaria, que era como disse destríssima, e tirada dos lugares nossos de Africa.

[…] E tornarão sobre nós com muitas rociadas de sua escopetaria, e os de cavallo com muitas entradas a nós, que pelejamos a pé quedo recebendo quanto dano podeis imaginar, té que este nosso terço, ao menos a dianteira delle, dos ventureiros (porque todo não seguio tanto adiante) foi todo desfeito, e mortos quasi todos, sem nunca os Mouros se chegarem a nos medir comnosco com espadas. Pelo que muitos, que eu vi, se ião como leões raivosos meter por elles desesperados, fazendo feitos tambem desesperados, e proezas que não ouso contar-vos. De maneira que de huns, e outros ficou aquillo por ali té onde chegamos cuberto de mortos, homens, e cavallos, em tanto, que dificultosamente se podia por ali entrar a cavallo, depois: e tanto o sangue que em partes me dava quasi pelo artelho. E tudo gritos, e lamentos, mortos em cima  de vivos, e vivos de mortos, todos feitos pedaços, Christãos, e Mouros abeaçados, chorando e morrendo, huns sobre a artilharia, outros braços, e tripas arrastando, debaixo de cavallos, e em cima espedaçados,  e tudo muito mais do que já vos posso, porque aperta comigo a dor, na lembrança do que passei.”

DOC. 2

INSTRUÇÕES DO CARDEAL REI D. HENRIQUE RELATIVAS AO RESGATE DO CORPO DE D. SEBASTIÃO E À LIBERTAÇÃO DOS PRISIONEIROS. O documento, datado de 6 de setembro de 1578, foi entregue a D. Rodrigo de Meneses enviado a Ceuta com instruções para a capitão da cidade D. Lionis Pereira, para o corregedor Belchior do Amaral e para Fr. Roque do Espírito Santo, religioso da Ordem da Santíssima Trindade.

Publicado por Fr. Jerónimo de São José, Historia Chronologica da Esclarecida Ordem da SS. Trindade, Redempção de cativos, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789, pp. 390-392.

Dom Rodrigo de Menezes, amigo. Pela materia a que vos mando a Africa ser de tão grande qualidade, e importancia como he, tirar-se da terra de Mouros, e trazer se a estes Reinos o corpo do Senhor Rei meu Sobrinho, que Deos tem, me pareceo enviar-vos a este feito, crendo, e confiando de vós que o consequireis com aquella decencia, e brevidade que a materia pede, e conforme a obrigação que a ella tenho, e a que vos ponho, encarregando-vos della, em que fareis o seguinte: I. Hireis direito á praça de Ceuta, onde hei por bem que façais este negocio, por ser lugar mais conveniente que Tangere, e Arzila, dando a minha Carta a D. Lionis Pereira, Capitão da Cidade, e falando ao Corregedor Belchior do Amaral: II. Tambem hei por meu serviço, que para o mesmo effeito esteja em Ceuta convosco o P. Fr. Roque da Ordem da Trindade, para quem levais Carta, pela muita prática, e experiencia que tem das cousas da Redempção, e das mais de terra de Mouros, de maneira que hei por bem que com o Capitão D. Lionis, o Corregedor  Belchior do Amaral, e o P. Fr. Roque pratiqueis, e consulteis todas as dependências desta materia, para com o parecer de todos resolverdes naqueles pontos em que for necessario, por se não perder tempo, e se arriscar o negocio: III. Para ElRei de Fés levais huma Carta minha de crença, a qual mandareis logo pelo P. Fr. Roque e da resposta que tiverdes me despachareis logo hum correio, dando me conta tambem de tudo o que te então tiverdes feito: IV. Cumpre tanto a brevidade nesta materia, assim por decencia, como por tudo, que ainda que muito breve me despacheis os correios, e venhão por Andaluzia, aonde está ordem particular por mar, e por terra para sua expedição, com tudo pela confiança que em vós tenho me pareceo bem levardes comissão para cerrardes este negocio, sem mo fazerdes a saber, chegando se convosco a alguma quantia que vos pareça arrazoada, e para deverdes aceitar, sem dardes lugar ao arrependimento dos Mouros, e á mudança que nelles póde causar a variedade com que procedem; e podeis chegar até a quantia de vinte mil cruzados, a qual lemitação tereis em todo o segredo, sem passar de vós a outra pessoa: V. Tereis particular cuidado de saberdes das Reliquias que levava o Senhor Rei meu sobrinho, que Deus tem, ao Thesoureiro de sua capella, que erão, hum Espinho da Coroa de Nosso Senhor, o Santo Lenho da Vera Cruz, e outras mais; e trabalhareis quanto for possivel para as cobrar, tendo nisto todo o bom modo, que para effeito convém, e tambem vos recomendo que saibais do escritório de S. Alteza, em que tinha os seus papeis, que importa muito haverem-se em todo i caso, e fazerdes por isso quantas diligencias poderdes: VI. Sabereis de Belchior do Amaral que sinaes são os que escreveo o Capitão D. Duarte de Menezes, que elle deixára no corpo de Sua Alteza, para se poder bem conhecer, e vós os tereis no mesmo segredo em que os tem Belchior do Amaral, pela importancia de que he avello visto. Tratareis por via do Alcaide de Alcacer, ou pela que melhor parecer, como consinta que na casa aonde está o corpo de Sua Alteza estem continuamente dous Religiosos da Trindade, ou hum, quando não consentirem dous, para que o acompanhem de dia, e de noite, e se não apartem nunca dalli; e ordenareis que estes Religiosos sejão dos que ora de cá vão, ou lá estiverem, como parecer ao P. Fr. Roque; mas a nenhum deles dareis conta dos sinaes, nem passará este segredo de vós a pessoa alguma: VII. Tambe, hei por bem, e meu serviço que trateis do resgate dos Fidalgos, que estão cativos. Entendendo-se porém que o que somente vos mando he aon effeito que atrás vos digo; mas acessoriamente vos encomendo que saibais o que nisto passa, porque prejudicaria muito ao negocio cuidar-se que levais ordem minha para isto, não só entre os Mouros, mas tambem entre os Christãos. Ei por bem que se trate dos resgates, pois sei que tenho obrigação de mandar fazer nisso todos os bons officios que poderem ser. E vos advirto nesta materia que se podem fazer juntamente de todos, ou tratar-se de cada cativo por si; o que agora parece he, se fará melhor negocio resgatando-se todos juntos, ao menos os que estão em poder de ElRei de Fés. A dilação póde ser em grande prejuízo porque póde haver cativos que depois de conhecidos se levantem seus resgates, e peção por elles excessivamente. Encommendo-vos com particularidade o que toca ao livramento de D. Antonio, meu sobrinho, e do Duque de Barcellos, e do Duque de Aveiro, de que tereis especial cuidado, fazendo nisto, e para este effeito todos os bons officios, de que sabeis eu me haverei por servido; pois vedes a obrigação que tenho para vos mandar tratar disto tão particularmente como he razão: VIII. E posto que entre as outras pessoas de qualidade não possa haver em muitos deles precedência de huns a outros, todavia materia he de consideração, havendo outros respeitos mais obrigatórios, de cujo exemplo se poderá receber edificação, e não escândalo, como seria o resgatardes o Fidalgo, que ou por doente, ou por andar encoberto, antes de ser conhecido, ou por muito velho, ou por muito moço, será razão de se tire primeiro. Os moços Fidalgos vos ei por muito encomendados, para que se resgatem logo: IX. Nesta materia dos cativos vos ajudareis dos Padres da Trindade, e tereis lembrança de mandardes saber de Filippe Tercio, que he hum Engenheiro Italiano, que hia no exercito do Senhor Rei meu Sobrinho, que Deos tem, e o fareis resgatar logo, porque he homem util, e que convém para o serviço da sua profissão. E tambem tereis cuidado dos cativos Portuguezes, e da experiencia, e de alguns Officiaes das companhias, que hião nos terços, práticos na guerra, porque são homens para servir nella: X. Tereis lembrança, e advertencia no que vos disse, que me não pareceo por alguns respeitos escrevos-vos algumas cousas claras; e do que nisto passardes me avisareis, escrevendo-se particularmente por huma cifra, que levareis; e não se me oferece dizer-vos mais, tendo por mui certo que nella me servireis, como por tudo de vós espero. Escrita em Lisboa a 6 de Setembro de 1778, Rei.

FONTES HISTÓRICAS – Documentos iconográficos

In Miguel Leitão de Andrada, Miscellanea, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012, pp. 126-127.

Retrato de D. Sebastião, atribuído a Cristovão de Moura, c. 1571-1574.

Museu Nacional de Arte Antiga.

OUTROS MATERIAIS DIDÁTICOS

RECONSTITUIÇÃO DOS MILITARES DA BATALHA DE ALCÁCER QUIBIR. Estes materiais inserem--se na atividade Recriar a Batalha de Alcácer Quibir 444 anos depois, que desenvolvemos na Noite Europeia dos Investigadores 2022. Este evento realizado anualmente na última 6ª feira de setembro, financiado pela Comissão Europeia, tem como objetivo aproximar investigadores e cidadãos.

FICHAS PARA PINTAR, RECORTAR E APRENDER


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